Era Natal na Toscana.
Frio, uma chuva fina que vinha e voltava, a cidade completamente vazia.
Nenhuma loja aberta. Nenhum movimento na rua.
Nada para fazer.
E, pela primeira vez na viagem, a gente simplesmente ficou.
Levantamos mais tarde, tomamos café sem pressa e comecei a preparar o almoço de Natal. Tudo em um ritmo mais lento do que o habitual — não porque a gente decidiu desacelerar, mas porque não existia motivo para correr.
Enquanto eu cozinhava, a gente conversava. Ria. Falava sobre viagens, planos, ideias soltas.
Almoçamos, e depois cada uma foi para o seu quarto. Aquela pausa depois do almoço que se estende sem culpa.
Eu dormi. Acordei. Fiquei no celular. Assisti série. Deitei de novo.
Um dia simples. Sem grandes acontecimentos. E, ainda assim, raro.
À noite, enquanto organizávamos a ida para Roma no dia seguinte, a Grazi disse:
Foi a primeira vez em anos que eu não fiz nada o dia todo.
Aquilo não me pareceu normal. Não o dia. Mas o fato de ele ser uma exceção.
Em que momento parar deixou de ser algo natural?
Porque não era falta de tempo. Naquele dia, o tempo existia.
A gente só parou porque não tinha uma alternativa melhor. E isso diz muito mais do que parece.
Eu já estive nesse lugar. Já fui daquelas que trabalhava de domingo a domingo — e sentia culpa só de pensar em parar.
Parar não era descanso. Era improdutividade.
Com o tempo, eu comecei a perceber que até o conceito de pausa estava distorcido.
E foi aí que eu comecei a construir, de forma intencional, o que hoje eu chamo de momentos do nada.
Não é sobre desaparecer um dia inteiro — embora isso também aconteça às vezes. Mas sobre pequenas pausas ao longo do dia em que eu simplesmente não faço nada útil.
Eu paro o que estou fazendo e vou brincar com meus gatos. Fico alguns minutos olhando pela janela enquanto o sol entra. Deito na cama sem um objetivo claro. Tomo banho prestando atenção na água, no cheiro, no silêncio.
Não é ausência de ação. É ausência de cobrança.
É sair, ainda que por alguns minutos, desse estado mental constante de produtividade. E isso muda tudo.
A viagem até cria essas pausas. Mas ela não resolve isso por você. Porque, se não for intencional, você leva o mesmo ritmo com você.
Já ouvi muitas pessoas dizerem que viajaram para lugares incríveis — e não viram nada. Não porque não deu tempo. Mas porque o trabalho ocupou todo o espaço disponível.
No filme O Diabo Veste Prada, tem uma fala que sempre me marca. O Nigel diz que queria conhecer Paris de verdade — porque todas as vezes que esteve lá, estava trabalhando.
Ele esteve em Paris. Mas nunca esteve em Paris.
E talvez esse seja o ponto.
Não é sobre parar tudo. Nem sobre encontrar um equilíbrio perfeito — até porque equilíbrio, pra mim, sempre pareceu rígido demais.
É sobre harmonia.
Sobre conseguir integrar trabalho, pausa e presença dentro da vida — sem precisar excluir nenhum.
O problema não é o quanto você trabalha. É o fato de você nunca realmente parar.
Porque o tempo até pode aparecer. Mas, se você não souber o que fazer com ele… você vai preencher de novo.
E dificilmente vai ser com algo que te traga de volta para você mesma.