Quando pensamos em uma viagem pela Toscana, é provável que algumas imagens apareçam primeiro: Florença, Siena, cidades medievais, colinas cobertas de vinhedos e estradas ladeadas por ciprestes.
Mas existe outra paisagem no extremo norte da região.
Na Lunigiana, entre os Apeninos e os Alpes Apuanos, aparecem montanhas, pequenos vilarejos, castelos e extensos bosques de castanheiras.
E são justamente essas árvores que ajudam a contar uma das histórias mais interessantes do território.
Durante séculos, a castanha foi tão importante para a alimentação das comunidades locais que a castanheira ficou conhecida como “árvore do pão”.
Conhecer essa história é também uma maneira de descobrir uma Toscana bastante diferente daquela que normalmente aparece nas fotografias.
Onde fica a Lunigiana?
A Lunigiana está no extremo norte da Toscana, em uma região atravessada pelo rio Magra e cercada pelos Apeninos e pelos Alpes Apuanos.
Historicamente, sua posição fez dela um território de passagem entre as montanhas e o mar. Rotas antigas como a Via Francigena atravessam a região, onde pequenos povoados, castelos e paisagens rurais ainda têm presença marcante.
É também uma Toscana mais montanhosa e coberta por bosques.
E, durante muito tempo, um desses elementos da paisagem teve uma importância especial para quem vivia ali: os castanhais.
Por que a castanheira era chamada de “árvore do pão”?
A explicação é bastante concreta.
Durante séculos, as castanhas ajudaram a alimentar a população da Lunigiana, inclusive em períodos de pobreza, guerra e escassez.
Em um território de montanha, a farinha produzida a partir delas tornou-se um alimento importante para as comunidades rurais.
Por isso, os castanhais não eram simplesmente áreas de floresta. Eles eram cuidados pelas famílias ao longo do ano.
No início de setembro começava a preparação para a colheita, com a limpeza dos terrenos e os cuidados com as árvores.
Tradicionalmente, a coleta das castanhas começava por volta de 29 de setembro, dia de São Miguel, e envolvia diferentes integrantes das famílias.
Mas colher era apenas o começo.
Dos bosques aos gradili
Depois da colheita, era necessário retirar a umidade das castanhas para conservá-las e posteriormente produzir farinha.
Para isso existiam os gradili.
São pequenas construções rurais de pedra, geralmente com dois níveis, utilizadas para a secagem das castanhas.
As castanhas ficavam na parte superior enquanto, embaixo, um fogo mantido lentamente fornecia o calor necessário para o processo.
Na produção tradicional da Farina di Castagne della Lunigiana DOP, essa secagem dura pelo menos 25 dias e utiliza madeira de castanheiro.
Depois de secas e limpas, as castanhas seguem para a moagem em pedra.
É assim que um fruto colhido nos bosques se transforma em uma farinha fina, de cor marfim e sabor naturalmente adocicado.
A Farina di Castagne della Lunigiana DOP
A Farina di Castagne della Lunigiana recebeu a Denominação de Origem Protegida (DOP) em 2006.
A certificação estabelece uma ligação direta entre o produto, o território e sua forma de produção.
A área da DOP abrange municípios da província de Massa-Carrara, entre eles Pontremoli, Fivizzano, Bagnone, Licciana Nardi, Casola in Lunigiana e Zeri.
Mais do que uma certificação gastronômica, a farinha ajuda a preservar uma cadeia de conhecimentos que começa nos castanhais, passa pela secagem nos gradili e termina na moagem.
E depois chega à cozinha.
O que a farinha de castanhas virou na cozinha da Lunigiana
Ao longo do tempo, a farinha de castanhas entrou em diferentes preparações locais.
Uma das mais interessantes é a Marocca di Casola.
Esse pão nasceu na região de Casola in Lunigiana e era preparado com os ingredientes disponíveis para as famílias rurais: muita farinha de castanhas, um pouco de farinha de trigo, batatas, água, fermento, azeite e sal.
Foi durante séculos um alimento importante para agricultores da região e teve papel especialmente relevante em momentos de escassez.
A tradição quase desapareceu com o abandono progressivo do campo depois da Segunda Guerra Mundial, mas foi recuperada. Atualmente, a Marocca di Casola é reconhecida como Presídio Slow Food.
A farinha de castanhas também aparece em outras receitas da Lunigiana, como a lasagna bastarda, o patone e o cian.
Não é preciso experimentar todas para compreender a história.
O interessante é perceber como um ingrediente disponível no território deu origem a uma cozinha própria.

Onde procurar essa história durante uma viagem
A cultura da castanha não está concentrada em uma única atração turística.
Ela aparece em diferentes pontos da Lunigiana.
Casola in Lunigiana e Regnano estão particularmente ligados à Marocca di Casola. Em Regnano ainda é possível encontrar esse pão tradicional e, no período da castanha, observar elementos relacionados à antiga forma de produção.
Licciana Nardi mantém uma ligação forte com essa memória. No outono, a tradição da castanha ganha destaque especial no território.
Em outros pequenos povoados, como Tavernelle, antigos gradili continuam sendo utilizados e ajudam a preservar os conhecimentos ligados à secagem das castanhas.
E os próprios bosques fazem parte dessa descoberta.
Quem percorre a Lunigiana com essa história em mente começa a enxergar a paisagem de outra maneira.
Qual é a melhor época para conhecer a cultura da castanha?
Se a intenção for perceber essa tradição mais presente no cotidiano, o outono é o período mais interessante.
A colheita começa a partir do fim de setembro e outubro é especialmente ligado à cultura da castanha, com secagem nos gradili e celebrações locais.
Isso não significa que só valha a pena conhecer a Lunigiana nessa época.
A região pode ser visitada em outros momentos do ano, mas o outono acrescenta uma razão específica para a viagem: encontrar uma tradição diretamente ligada à estação e ao território.
Antes de planejar, vale confirmar as datas das festas, produtores abertos à visitação, atividades e demais experiências disponíveis naquele ano.
Vale incluir a Lunigiana em uma viagem pela Toscana?
Depende da viagem que você quer fazer.
Se é sua primeira vez na Toscana e você tem poucos dias, talvez Florença, Siena e outras cidades mais conhecidas continuem fazendo mais sentido para você.
Mas, para quem já conhece a região, pretende permanecer mais tempo ou procura combinar cidades históricas com natureza, pequenos povoados e cultura local, a Lunigiana abre outra possibilidade.
Não é preciso trocar a Toscana dos vinhedos pela Toscana dos castanhais.
As duas podem fazer parte da mesma região — e de viagens completamente diferentes.
Esse talvez seja o ponto mais interessante.
Conhecer melhor um destino não significa necessariamente procurar lugares desconhecidos.
Às vezes significa descobrir novas razões para voltar a olhar para um lugar que pensávamos conhecer.
Na Lunigiana, uma dessas razões começa com uma castanheira.
E com uma história que explica por que, durante gerações, ela foi chamada de árvore do pão.
Para planejar
Onde: Lunigiana, extremo norte da Toscana, principalmente na província de Massa-Carrara.
Quando considerar: o outono, especialmente entre o fim de setembro e outubro, se o interesse principal for a cultura da castanha.
O que procurar: castanhais, gradili, Farina di Castagne della Lunigiana DOP, Marocca di Casola e pequenos povoados ligados a essa tradição.
Importante: festas, visitas a produtores, atividades e horários podem mudar de um ano para outro. Confirme as informações antes da viagem em fontes oficiais.
Fontes consultadas
Visit Tuscany — portal oficial de turismo da Toscana: páginas sobre a tradição das castanhas na Lunigiana, Farina di Castagne della Lunigiana DOP, Marocca di Casola, Casola in Lunigiana e gastronomia da região.
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