Quando pensamos na Sardenha, é fácil imaginar praias de água transparente, pequenas enseadas e verões à beira do Mediterrâneo.

Mas basta seguir alguns quilômetros para o interior da ilha para encontrar outra Sardenha.

Em meio a campos, colinas e paredões de pedra aparecem pequenas aberturas escavadas na rocha. Algumas quase desaparecem na paisagem. Outras conduzem a conjuntos de salas, colunas, tetos e símbolos talhados há milhares de anos.

São as Domus de Janas.

O nome costuma ser traduzido como “casas das fadas” e pertence ao imaginário popular sardo. A arqueologia, porém, conta outra história: esses lugares eram tumbas subterrâneas construídas pelas comunidades pré-históricas da ilha.

É justamente o encontro entre essas duas histórias — aquilo que sabemos e aquilo que foi imaginado ao longo dos séculos — que torna as Domus de Janas uma das descobertas mais interessantes de uma viagem pela Sardenha.

O que são as Domus de Janas?

As Domus de Janas são tumbas escavadas diretamente na rocha, muitas vezes agrupadas em necrópoles.

Segundo a UNESCO, elas foram criadas entre o 5º e o 3º milênio antes de Cristo e estão espalhadas por toda a Sardenha.

São conhecidas atualmente cerca de 3.500 dessas estruturas na ilha.

Isso significa que não estamos falando de um único sítio arqueológico, mas de um fenômeno que ocupou grande parte do território sardo durante milhares de anos.

Algumas são pequenas e simples. Outras possuem várias câmaras e uma arquitetura surpreendentemente elaborada.

E é aí que começa uma das partes mais interessantes dessa história.

Tumbas feitas para lembrar as casas dos vivos

Algumas Domus de Janas reproduzem na pedra elementos encontrados nas moradias das comunidades que as construíram.

Dentro delas aparecem tetos esculpidos para lembrar estruturas de madeira, colunas, pilares, lareiras, portas falsas e outros detalhes arquitetônicos.

Há também pinturas, gravuras e símbolos.

Em outras palavras, ao escavar uma tumba, aquelas populações não criavam simplesmente uma cavidade onde colocar seus mortos.

Em muitos casos, construíam ambientes que lembravam o universo doméstico dos vivos.

Essa característica é uma das razões pelas quais as Domus de Janas são tão importantes para a arqueologia: além das práticas funerárias, elas preservam pistas sobre a arquitetura, as crenças e a vida cotidiana de comunidades que viveram na Sardenha há milhares de anos.

Entradas de Domus de Janas escavadas em grandes blocos de rocha cercados por árvores
As entradas escavadas na rocha ajudam a imaginar a arquitetura das antigas necrópoles.

Então de onde vieram as “casas das fadas”?

Muito tempo depois de essas tumbas terem sido construídas, sua função original deixou de fazer parte da memória das pessoas.

As pequenas entradas abertas na rocha continuaram ali.

E o imaginário popular encontrou outras maneiras de explicá-las.

Segundo as lendas sardas, seriam moradas das Janas, pequenas criaturas fantásticas associadas às fadas.

As histórias variam, como costuma acontecer com tradições transmitidas durante gerações. Em algumas delas, as Janas aparecem tecendo fios de ouro à luz da lua.

Foi assim que antigas tumbas pré-históricas passaram a ser conhecidas como “casas das fadas”.

É importante separar as duas camadas.

As Domus de Janas como tumbas pertencem à arqueologia.

As Janas pertencem à tradição popular.

Uma história não prova a outra. Mas conhecer as duas ajuda a compreender como um mesmo lugar pode ganhar significados diferentes ao longo de milhares de anos.

Um novo Patrimônio Mundial da UNESCO

Em 2025, a tradição funerária pré-histórica das Domus de Janas entrou para a Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

O bem reconhecido é seriado, ou seja, reúne diferentes lugares que, em conjunto, representam esse patrimônio.

São 18 componentes distribuídos pela Sardenha, escolhidos para representar a diversidade das tumbas, de suas formas arquitetônicas e de suas decorações.

Mas o universo das Domus de Janas é muito maior.

As aproximadamente 3.500 estruturas conhecidas estão espalhadas pela ilha e fazem parte de paisagens bastante diferentes entre si.

Para quem viaja, isso abre uma possibilidade interessante: conhecer algumas delas dentro do próprio roteiro, sem necessariamente transformar a viagem numa expedição arqueológica.

Quais Domus de Janas conhecer na Sardenha?

Não faz sentido tentar conhecer dezenas delas.

É mais interessante escolher um ou dois sítios que combinem com a região da Sardenha que você pretende visitar.

Anghelu Ruju, perto de Alghero

Para quem estiver no noroeste da ilha, Anghelu Ruju é uma das opções mais fáceis de associar a um roteiro.

A necrópole fica no interior de Alghero, a menos de dez quilômetros do mar, e reúne 38 tumbas escavadas no arenito.

É considerado o maior conjunto funerário pré-histórico desse tipo no norte da Sardenha.

Há tumbas com diferentes formas de acesso e vestígios de elementos simbólicos e decorativos.

A localização é particularmente interessante porque permite acrescentar uma camada histórica a uma viagem que poderia estar concentrada apenas em Alghero e no litoral.

Sant'Andrea Priu, em Bonorva

Em Sant'Andrea Priu, na região de Bonorva, encontramos outro exemplo de como essas tumbas podiam ser complexas.

O conjunto reúne cerca de vinte Domus de Janas. Uma delas possui 18 ambientes e reproduz vários elementos da arquitetura doméstica.

O lugar também ganhou novos usos ao longo do tempo: uma das tumbas foi posteriormente transformada em espaço de culto cristão.

É um bom exemplo de algo recorrente quando viajamos pela Itália: um mesmo lugar atravessa épocas diferentes e acumula novas funções sem apagar completamente aquilo que existia antes.

Montessu, no sul da ilha

No sul da Sardenha, perto de Villaperuccio, está a necrópole de Montessu.

Ali, dezenas de tumbas foram escavadas na encosta rochosa formando um grande conjunto arqueológico.

A própria paisagem ajuda a compreender a dimensão do lugar: as entradas aparecem distribuídas pelo paredão como parte de um anfiteatro natural.

Para quem estiver explorando o sul da ilha, Montessu pode ser uma maneira de incluir a Sardenha pré-histórica num roteiro sem precisar atravessar o território apenas para visitar um sítio arqueológico.

Como escolher qual visitar

A primeira pergunta não deveria ser “qual é a melhor Domus de Janas?”.

É mais útil perguntar:

qual delas faz sentido para o roteiro que eu já estou construindo?

Se você ficará em Alghero, por exemplo, Anghelu Ruju pode ser uma inclusão natural.

Se a viagem passar pelo interior do norte da ilha, Sant'Andrea Priu pode fazer mais sentido.

Se o roteiro estiver concentrado no sul, Montessu pode ser uma escolha mais coerente.

Também é importante considerar que estamos falando de sítios arqueológicos, muitas vezes inseridos em áreas naturais e com condições de acesso diferentes.

Antes da visita, confirme sempre nos canais oficiais:

  • dias e horários de abertura;
  • necessidade de reserva;
  • condições de acesso às tumbas;
  • características do terreno;
  • disponibilidade de visitas guiadas;
  • eventuais fechamentos temporários.

Algumas estruturas são pequenas, possuem passagens estreitas ou não são integralmente acessíveis. Saber disso antes ajuda a escolher um sítio compatível com a viagem que você quer fazer.

Uma Sardenha que vai muito além do mar

Nada disso diminui as praias da Sardenha.

Elas continuam sendo uma excelente razão para conhecer a ilha.

Mas não precisam ser a única.

As Domus de Janas mostram uma Sardenha habitada e transformada por pessoas muito antes das cidades, igrejas e povoados que encontramos hoje.

Depois vieram as histórias.

Alguém olhou para aquelas pequenas portas abertas na pedra sem saber exatamente quem as havia construído e imaginou que ali poderiam viver fadas.

A arqueologia encontrou outra resposta.

E nós podemos viajar conhecendo as duas.

Talvez seja essa uma das melhores razões para procurar uma Domus de Janas durante uma viagem pela Sardenha: perceber que aquela pequena abertura na rocha guarda não apenas uma história de milhares de anos, mas também as muitas maneiras que as pessoas encontraram, ao longo do tempo, para explicar a paisagem ao seu redor.

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Fontes: UNESCO e SardegnaTurismo.