Você faria uma peregrinação de 1.546 quilômetros pela Itália?
Se a resposta imediata foi “não”, continue lendo.
Porque essa não é exatamente a proposta do Cammino di Francesco.
Em 2026, ano em que se completam 800 anos da morte de São Francisco de Assis, a Itália apresentou uma nova organização nacional dos caminhos relacionados à história do santo.
O projeto reúne 1.546 quilômetros de percursos, variantes e ramificações distribuídos por seis regiões: Abruzzo, Emilia-Romagna, Lazio, Marche, Toscana e Umbria.
Mas o primeiro ponto a entender é justamente este:
não existe uma única trilha de 1.546 quilômetros que você precise percorrer do começo ao fim.
O Cammino di Francesco funciona como uma rede.
E isso torna a ideia muito mais interessante até para quem nunca pensou em fazer uma peregrinação.
O QUE É O CAMMINO DI FRANCESCO?
Os caminhos ligados a São Francisco não nasceram em 2026.
Há muito tempo existem rotas que passam por lugares relacionados à vida do santo e à tradição franciscana.
A novidade é a tentativa de reunir e organizar esses diferentes percursos dentro de uma identidade comum.
Na apresentação oficial de 2026, o Ministério do Turismo italiano definiu o novo Cammino di Francesco como uma síntese dos vários caminhos e itinerários inspirados pela passagem de Francisco e pela história da ordem franciscana.
Isso é importante porque evita uma interpretação equivocada bastante fácil:
a Itália não abriu agora uma estrada de 1.546 quilômetros.
Ela criou uma rede nacional de caminhos ligados a essa história, com rotas, mapas e informações reunidos também no portal oficial de turismo Italia.it.
POR ONDE PASSA O CAMMINO DI FRANCESCO?
A rede atravessa seis regiões italianas:
- Abruzzo
- Emilia-Romagna
- Lazio
- Marche
- Toscana
- Umbria
Dentro dela existem diferentes pontos de partida e diferentes formas de chegar a Assis.
Entre os percursos já apresentados oficialmente estão caminhos que partem de La Verna, Ascoli Piceno e Roma.
Isso significa que não existe apenas uma resposta para a pergunta “como fazer o Cammino di Francesco?”.
A pergunta mais útil é:
qual trecho combina com a viagem que você quer fazer?
ALGUNS EXEMPLOS AJUDAM A ENTENDER
DE ASCOLI PICENO A ASSIS
O percurso oficial entre Ascoli Piceno e Assis tem 167 quilômetros divididos em oito etapas.
Ele atravessa Marche e Umbria e passa por localidades como Venarotta, Comunanza, Sarnano, Colfiorito e Foligno antes da chegada a Assis.
Não é preciso, porém, percorrer necessariamente as oito etapas para conhecer a região.
Uma pessoa que já esteja planejando uma viagem por Marche e Umbria pode começar investigando se uma ou duas dessas etapas fariam sentido dentro do roteiro.
DE LA VERNA A ASSIS
Outro percurso parte de La Verna, na Toscana, e chega a Assis pela rota de Pieve Santo Stefano.
São 189,6 quilômetros distribuídos em dez etapas, atravessando as Florestas Casentinesi, o vale do Alto Tibre e cidades da Toscana e da Umbria.
É uma ligação especialmente interessante para entender como o Cammino pode conectar lugares que normalmente seriam tratados apenas como destinos independentes.
Em vez de simplesmente sair de uma cidade e chegar à próxima, o espaço entre elas passa a fazer parte da experiência.
DE ROMA A ASSIS
Há também um caminho entre Roma e Assis pela rota Salaria, com 247 quilômetros e 14 etapas.
Ele atravessa a Sabina e a chamada Valle Santa Reatina, passando por lugares ligados à presença franciscana, como Poggio Bustone, Fonte Colombo e Greccio.
Mais uma vez: saber que existem 14 etapas não significa que você precise fazer todas.
O mapa serve também para encontrar possibilidades.
ENTÃO POSSO FAZER APENAS ALGUMAS ETAPAS?
Em princípio, sim.
E esse talvez seja o aspecto mais interessante para quem está planejando uma viagem convencional pela Itália.
Você pode estudar o Cammino não como uma viagem completa, mas como uma possibilidade dentro do roteiro.
Dois ou três dias caminhando podem substituir alguns deslocamentos tradicionais e criar outra relação com a região.
Mas isso precisa ser planejado com cuidado.
Uma etapa não deve ser escolhida apenas porque parece bonita no mapa.
É preciso verificar:
- distância;
- ganho e perda de altitude;
- duração estimada;
- tipo de terreno;
- sinalização;
- onde dormir;
- como chegar ao início;
- como sair ao final;
- possibilidade de transporte de bagagem, quando necessário;
- disponibilidade de água e alimentação ao longo do percurso;
- condições climáticas na época da viagem.
O portal Italia.it publica essas informações para várias etapas e oferece arquivos GPX das rotas.
Em um trecho entre Valfabbrica e Assis, por exemplo, os 13,4 km incluem 589 metros de subida e 518 metros de descida.
Ou seja: distância curta não significa necessariamente caminhada fácil.
Esse é um detalhe importante para qualquer pessoa que esteja pensando em incluir o Cammino na viagem.
O QUE SE ENCONTRA PELO CAMINHO?
A experiência muda conforme a região e o trecho escolhido.
Há caminhos por bosques e áreas montanhosas, paisagens agrícolas, pequenos centros históricos, igrejas, mosteiros, eremitérios e cidades.
Na chegada a Assis pela etapa de Valfabbrica, por exemplo, o percurso atravessa bosques, olivais e vinhedos antes que a Basílica de São Francisco apareça à distância.
Já o trecho entre La Verna e Assis combina Florestas Casentinesi, o Alto Vale do Tibre e cidades históricas da Toscana e da Umbria.
Por isso, não faz muito sentido falar do Cammino como se fosse uma experiência única.
O trecho escolhido muda a viagem.

É PRECISO SER RELIGIOSA PARA FAZER O CAMMINO DI FRANCESCO?
Não.
Mas também não faria sentido apresentar esse caminho apagando sua origem.
O Cammino existe por causa da história de Francisco de Assis, dos lugares relacionados à sua vida e da tradição de peregrinação que se formou ao redor deles.
La Verna, Assis e a Valle Santa de Rieti estão entre os grandes pontos dessa geografia franciscana.
Isso não significa que apenas pessoas movidas pela fé possam se interessar.
O próprio portal turístico italiano apresenta os percursos também a partir da natureza, da história, dos vilarejos e do patrimônio cultural.
Você pode se interessar pelo Cammino porque gosta de caminhar, conhecer cidades menores, estar na natureza, visitar patrimônio histórico, descobrir outra parte da Itália ou simplesmente viajar de uma maneira diferente por alguns dias.
A origem religiosa continua existindo.
A motivação de cada viajante pode ser outra.
COMO FUNCIONA A CREDENCIAL DO PEREGRINO?
Quem decide percorrer o Cammino como peregrino pode solicitar a Credenziale del Pellegrino.
Ela acompanha o viajante durante o percurso e recebe carimbos e datas nos lugares de passagem e hospedagem.
Na chegada a Assis, existe também o Testimonium Peregrinationis Peractae ad Sanctorum Francisci et Clarae Civitatem, documento que certifica a peregrinação até o túmulo de São Francisco.
Para recebê-lo é necessário comprovar, por meio dos carimbos da credencial, pelo menos:
100 quilômetros finais a pé
ou
200 quilômetros finais de bicicleta.
Quem chega a Assis sem cumprir essas distâncias pode receber a Chartula Peregrini.
Se o seu interesse for apenas caminhar algumas etapas dentro de uma viagem maior, porém, o certificado não precisa ser o objetivo.
É PRECISO FAZER O CAMMINO INTEIRO?
Não.
E talvez seja exatamente aqui que o Cammino di Francesco começa a ficar interessante para um número muito maior de viajantes.
Uma viagem pela Itália geralmente é organizada a partir das cidades.
Roma.
Depois Florença.
Depois Assis.
Depois outra cidade.
Trem, carro ou ônibus fazem a ligação.
Os caminhos apresentam outra possibilidade:
transformar alguns desses espaços entre destinos em parte da própria viagem.
Isso não precisa significar uma semana inteira de caminhada.
Talvez sejam dois dias.
Talvez três.
Talvez você conheça a existência do Cammino e conclua que prefere continuar viajando de trem.
Também é uma boa decisão.
O importante é conhecer a possibilidade antes de escolher.
PARA QUEM ALGUNS DIAS NO CAMMINO PODEM FAZER SENTIDO?
Pode valer a investigação se você:
- gosta de caminhar por várias horas;
- tem curiosidade por cidades menores e zonas rurais;
- quer combinar natureza e patrimônio histórico;
- prefere incluir menos lugares e conhecer melhor uma região;
- gostaria de experimentar alguns dias sem depender de carro ou trem;
- aceita que certos trechos tenham subidas, terrenos irregulares e estrutura mais simples.
E há um cuidado especialmente importante:
não confundir caminhada agradável com passeio urbano.
Algumas etapas exigem preparo físico, calçado adequado e atenção à altimetria.
O próprio Italia.it classifica alguns itinerários entre La Verna e Assis como exigentes e descreve etapas com subidas consideráveis.
Conhecer o Cammino não significa subestimar o caminho.
COMO COMEÇAR A PLANEJAR
Se a ideia despertou curiosidade, eu não começaria comprando botas nem calculando quantos quilômetros consigo caminhar.
Começaria pelo roteiro da viagem.
Veja primeiro em que parte da Itália você pretende estar.
Depois consulte as rotas oficiais próximas daquela região e observe quais etapas poderiam se encaixar entre dois lugares que já fazem sentido para você.
A partir daí, pesquise cada etapa individualmente.
É muito mais fácil responder:
“Eu gostaria de caminhar de Gubbio a Valfabbrica?”
do que começar por:
“Será que eu conseguiria fazer 1.546 quilômetros?”
Essa segunda pergunta transforma uma rede cheia de possibilidades em um desafio que talvez você nunca tenha desejado assumir.
POR QUE O CAMMINO DI FRANCESCO MERECE ENTRAR NO SEU RADAR
Porque ele mostra uma Itália que normalmente fica entre os destinos.
Os 1.546 quilômetros impressionam, mas não são o principal.
O mais interessante é saber que existe uma rede de caminhos que permite olhar para Toscana, Umbria, Marche, Lazio, Abruzzo e Emilia-Romagna a partir de outra perspectiva.
Talvez você queira fazer uma peregrinação completa.
Talvez queira caminhar três dias.
Talvez nunca coloque uma mochila nas costas, mas descubra ali uma cidade que gostaria de conhecer.
Todas essas respostas são válidas.
Por isso, antes de perguntar se você faria o Cammino di Francesco inteiro, talvez valha uma pergunta muito mais simples:
qual parte desse caminho faria sentido na viagem que você quer fazer pela Itália?
FONTES OFICIAIS CONSULTADAS
- Ministero del Turismo italiano
- Italia.it
- Comitato Nazionale per l’ottavo centenario della morte di San Francesco
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